No nosso último artigo sugerimos três forma de reutilizar sobras de café

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Hoje voltamos a falar de café para partilhar uma iniciativa circular de reaproveitamento que nasceu num bairro emblemático em Lisboa.

No coração de Marvila, materializou-se o sonho do Natan Jacquemin, um belga de 25 anos que escolheu Lisboa para estudar gestão e que acabou por vislumbrar a oportunidade de dar uma segunda a vida aos restos de café na cidade.

Em Portugal, levamos muito a sério o hábito de tomar café. Anualmente são consumidas cerca de 10 mil toneladas da bebida em Portugal. Informação que reforçou, para Natan, a necessidade de “salvar” tanta matéria orgânica nutritiva. “Infelizmente, ao tomarmos café, só consumimos 2% do total da sua biomassa. O restante é puro desperdício!”, explica Natan.

O projeto Nãm é por isso um bom exemplo de combate ao desperdício alimentar e de revalorização. Um trabalho que transcende a sensibilização e esbarra, sobretudo, em iniciativas de políticas públicas. “Sozinhos, dificilmente conseguiríamos gerar impacto ambiental positivo. Em parceria com uma marca de café nacional, pude dar início ao reaproveitamento do pó de café (usado nas máquinas espalhadas pela cidade) para produzir cogumelos”, diz Natan. A equipa de Natan comemora a primeira “colheita” de cogumelos, que será (em breve) comercializada nos restaurantes locais.

Economia circular –

este projeto tem contribuído para mitigar, sobretudo, a problemática de geração de resíduos na cidade:


Logística do projeto. Fonte: Nãm

Curiosidade: A quinta onde os cogumelo são produzidos tem capacidade para transformar 3 toneladas de borras de café por mês (36 toneladas por ano), em 1 tonelada de cogumelos por mês (12 toneladas por ano). Além disso, pode gerar 4 toneladas de fertilizante natural, por mês.

Por dentro do projeto Nãm

Inspirado na natureza, o projeto está ancorado num plano de negócio que não prevê a geração de desperdício. Os produtos que nascem a partir da borra do café (cogumelos e fertilizante natural) acabam por finalizar o ciclo de vida do produto (o café usado).

O processo acontece em 6 etapas:

01. A empresa de café recolhe as borras nas máquinas disponíveis em Lisboa. São cerca de 150 quilos de borra “salvas”, por dia.

02. Assim que o café chega à quinta (a primeira quinta urbana de Lisboa), a equipa realiza uma triagem para garantir a qualidade e a não contaminação da borra.

03.O passo seguinte é a inoculação – processo onde se mistura a borra com sementes de cogumelo e palha.

04. Num dos contentores marítimos (reutilizado) acontece a incubação – processo onde se simula o ambiente natural para o florescimento dos cogumelos. Durante cerca de três semanas, o “preparado” ficará numa temperatura constante e sem a presença de luz.

05. No outro contentor, após o período de incubação, acontece a frutificação – onde se simula o ambiente primaveril, estação na qual os cogumelos nascem.

06. Cerca de dois meses após o plantio, a colheita acontece. A ideia é que os cogumelos sejam vendidos, muito em breve, q restaurantes locais. Além disso, um subproduto deste processo é um nutritivo fertilizante natural, que será oferecido à quintas que estejam a menos de 20 quilómetros da fábrica. Esta distância acaba por manter a pegada ecológica baixa.


Etapas da produção de cogumelos. Imagens: Projeto Nãm

Neste momento, um dos maiores desafios minimizar a sua pegada ecológica está associado ao uso do plástico. Natan explica: “Os cogumelos são decompositores e, acabam por “digerir” tudo o que for matéria orgânica. Motivo pelo qual ainda utilizamos o saco plástico para acondicionar a mistura de borra de café, sementes e palha. Infelizmente o plástico ainda é o material mais eficiente e economicamente viável na operação”. A boa notícia é que já estão a testar outras possibilidades para substituir o uso do plástico.

Dilemas como estes são muito comuns na vida dos empreendedores socioambientais. Em última instância, são precisamente estes dilemas que servem de catalisadores de mudança e de design disruptivo.

Curiosos para conhecer (de perto) o projeto Nãm? A quinta urbana organiza visitas, saiba mais como agendar a sua!

Conhecem outros projetos em Portugal que estimulam a economia circular? Adoraríamos saber!

Fontes: Projeto Nãm.