“From fast to fair”: como consumimos e como poderíamos consumir

“From fast to fair”: como consumimos e como poderíamos consumir

Por Joana Guerra Tadeu, consultora para o empreendedorismo e a gestão de mudança de projetos ecológicos 

Na passada sexta-feira, dia 15 de fevereiro, juntou-se, na Maria Granel de Campo de Ourique, um grupo de mulheres com opinião sustentada e consciente, para falar sobre consumo. Partindo do contexto da indústria da moda, uma que todos conhecemos e da qual todos consumimos, discutiu-se como podemos trocar a fast fashionpela fair fashion, o consumo rápido pelo apoio à produção ética e ao comércio justo. O público, perspicaz e informado, participou com reflexões e perguntas que acrescentaram valor e transformaram a conversa num debate muito positivo.

A convite da Eunice Maia, moderei esta conversa entre:

  • Kasia Galak, co-fundadora da @itswomb, uma plataforma online que promove marcas e ideias sustentáveis, éticas e sem crueldade;
  • Paula Perez, co-fundadora da @naeveganshoes, uma marca de calçado fabricada em Portugal sem exploração animal, ambiental e humana, desde 2008;
  • Tanja Wessels, @tanjarina,da @allinasia, uma plataforma multidisciplinar com foco no ativismo ambiental e no valor da comunidade,e da @circularcommunityhk, uma plataforma focada em informar, inspirar e aprender com a comunidade sobre os benefícios de um estilo de vida circular.

Começámos por celebrar uma boa notícia: as compras de roupa em segunda mão por razões ambientais aumentaram 22,5% desde 2016 – a mudança já está a acontecer! Por outro lado, revisitámos alguns factos e números sobre o impacto atual da indústria da moda:

  • São necessários 2700 litros de água para fazer uma blusa de algodão, a mesma quantidade que uma pessoa consome, em média, em mais de dois anos e meio;
  • As roupas que descartamos e que são feitas de tecidos não-orgânicos podem permanecer em aterros até 200 anos;
  • 80% de todas as roupas são feitas por mulheresentre os 18 e os 24 anos, que ganham uma média de 85 euros por mês, sendo que o governo do Bangladesh, principal exportador de roupa, admitiu que um trabalhador precisa de 3,5 vezes esse valor para viver “uma vida decente com condições básicas”;
  • Um relatório de 2018, feito pelo Departamento de Trabalho dos EUA, encontrou provas de trabalho forçado e trabalho infantil na indústria da moda em mais de uma dúzia de países.

 

Aceitando as premissas de que o atual sistema económico globalizado é extremamente complexo, pouco transparente e com inúmeras – e muitas vezes desconhecidas – ramificações, e de que as nossas escolhas, enquanto consumidores, têm consequências de longo alcance que podem causar danos irreparáveis ​​na sociedade e no ambiente, optámos por centrar a conversa na responsabilidade e na capacidade de impulsionar mudanças do consumidor.

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O que estão as empresas ecológicas a fazer para mudar esta realidade?

Paula Perez, fundadora da NAE Vegan Shoes, partilhou como uma marca, como a que lidera, pode planear e investir para diminuir o impacto negativo que pode ter sobre o ambiente. Frisou que as marcas de fast fashionsão orientadas para o lucro – e que isso será sempre o principal fator ponderado pelas mesmas – estando na mão dos consumidores exigir uma mudança de paradigma através dos seus padrões de consumo. Paula descreveu, também, alguns projetos NAE, como a criação de sapatos a partir de Pinatex – cabedal feito a partir das folhas de ananás – e a criação de uma coleção com tecidos reutilizados de airbags e solas feitas com a borracha de pneus de carros entregues para abate. Conversámos ainda sobre os pontos em comum e as diferenças entre oveganismo e a ecologia, pois, não sendo sinónimos, são valores que podem prosperar em simbiose.

 

O que valorizam os consumidores?

Kasia Galak descreveu um público cada vez mais informado e incomodado com as práticas das grandes empresas de fast fashion, que embora continuem a comprar sentem um peso na consciência; e uma minoria cada vez maior que se recusa a participar neste sistema pecaminoso. Os consumidores exigem agora, para além de produtos funcionais, uma história, com valor emocional e inspirador e um impacto social positivo. O problema é que esta exigência do consumidor de massas tem sido satisfeita não por alterações ao nível da produção, mas pela comunicação e o marketing de influencers, pelo que Kasia alertou para o greenwashing. Temos que continuar alerta – não podemos ser satisfeitos por políticas de sustentabilidade vazias e com metas definidas a 25 anos.

 

Qual a importância da arte, da criatividade e do ativismo?

Tanja Wessels lembrou-nos que vivemos em eco-ansiedade e explicou como a arte e o ativismo são fundamentais para alimentar a consciência e o consumo ético.Porque quem adora roupa e vestir-se vai continuar a adorar e a comprar, o que temos que potenciar é a criatividade dessas pessoas. A arte e o ativismo – e todas as oradoras frisaram que todos os consumidores podem ser artistas e ativistas das mais variadas e simples maneiras –  têm a responsabilidade de vocalizar as questões existentes, de tornar os problemas mais visíveis e as soluções mais acessíveis. Parafraseando Kasia no seu artigo sobre este evento, afast fashion é como uma zona de conforto, familiar, sempre presente, muito acessível, mas a vida acontece quando saímos do familiar e procuramos o extraordinário, o inexplorado, o assustador, o desconhecido.

 

Qual é o problema de doar roupa e acessórios?

Com o recente lançamento do programa de Marie Kondo na Netflixe o impacto visível que teve nas pessoas – como podemos ver nas redes sociais – seria irresponsável não falar do descarte de roupa. É preciso mais informação sobre os programas de recolha de roupa, tanto para doação como para reciclagem – temos que compreender qual é o futuro dessas peças que entregamos com a melhor das intenções mas, muitas vezes, com consequências negativas para o ambiente e as pessoas. O consumidor tem que ter consciência de que muita roupa não é reciclável e de que todas as peças doadas devem estar em boas condições ou tudo o que entregamos acabará num aterro.

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Em aberto ficaram questões como para que servem e o que representam as políticas de sustentabilidade das empresas de fast fashion? Será o boicote uma resposta válida? Que impacto poderá ter a criação de produtos-como-serviços? E o que vamos fazer ao nível da educação e das escolas para que as próximas gerações sejam compostas por consumidores conscientes e responsáveis?

 

Como escreveu Kasia Galak, na newsletter da plataforma Womb, nas suas conclusões sobre o evento, “a única coisa que podemos todos fazer, talvez a mais difícil, é ser corajosos, sair do nosso cantinho e ver todas as alternativas que se revelam. Temos todas as ferramentas – vamos usá-las para nos tornarmos melhores consumidores, melhores pessoas e, talvez, tornar o planeta num lar melhor e mais saudável.”

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Dicas rápidas para fazer a transição de fast para fair:

1 – Usar o que já se tem;

2 – Vasculhar os armários da família;

3 – Organizar trocas entre amigos (swap parties);

4 – Frequentar mercados de trocas (swap markets);

5 – Preferir roupa e acessórios em segunda mão;

6 – Reparar e alterar a roupa que já não usamos, prolongando-lhe a vida;

7 – Comprar a artesãos ecológicos, locais e de pequena escala;

8 – Reclamar, questionar, debater, partilhar, aprender, revolucionar!

 

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Lista de recursos mencionados durante o debate:

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